sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Nova Estratégia de Defesa americana: A China é o inimigo principal


O Pentágono acaba de divulgar a novíssima Estratégia de Defesa americana.



O documento (cuja leitura é imprescindível) estabelece quatro objectivos prioritários: 


Defending the homeland, paced to the growing multi-domain threat posed by the PRC; 

  

Deterring strategic attacks against the United States, Allies, and partners; 

  

Deterring aggression, while being prepared to prevail in conflict when necessary - prioritizing the PRC challenge in the Indo-Pacific region, then the Russia challenge in Europe, and; 

  

Building a resilient Joint Force and defense ecosystem. 


segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Mudanças Radicais na Concepção e na Estrutura do Poder Militar

São perspectivas novas e inéditas que George Friedman vê abrirem-se nas concepções e estruturas da potência militar. Uma análise que é indispensável conhecer e uma evolução que é imprescindível seguir. Uma "leitura" que vem ao encontro dos interesses nacionais portugueses e lhe abre novos horizontes, numa perspectiva há muito defendida pela equipa "intelNomics", a do "dual use".


The Military Power in the 21st Century


"The evolution of military power is one of the most important if underrated geopolitical changes happening in the world today.  


Throughout the 20th century, military power was the province of large nations. With advances in martial technology, war no longer requires a massive population, nor does it require massive consumption of raw material.

 

This has significant geopolitical consequences. We can see this evolution most clearly in Israel.  


Founded first on French and then American weapons, the Israeli military now has homegrown capabilities that it (ironically) can sell to others.  


They are designed around the principle that putting troops at risk is a possible but rare event, while using unmanned force as the dominant element of strategy.  


Israel has come the furthest with this strategy, but it can be seen also in places such as the United Arab Emirates and Singapore.  


As a result, each wields international political power far beyond what might have been expected from it during the prior era.  


New technologies enable small powers to engage much larger powers.  


The core of the force is the technologists who maintain and upgrade systems – a fraction of the manpower needed by the old definition of great powers." 


Ucrânia: A posição da China face à ameaça nuclear russa

A escassos dias do congresso do partido-estado, Pequim toma posição (dúbia, como é norma chinesa) sobre a cada vez mais operacional (e não apenas política) ameaça nuclear russa na Ucrânia. Recorde-se que a doutrina nuclear russa, ao contrário da americana, há muito que colocou as armas nucleares tácticas abaixo da linha vermelha, equiparando-as, em estatuto, a armas convencionais... Sobre o posicionamento de Pequim face a esta ameaça de Moscovo, o Intelligence on Line noticiava há minutos:

Beijing intervenes again in response to Moscow's nuclear threat

Discussions within the Russian high command indicate that Moscow is preparing for an operational, rather than political, use of the nuclear threat in Ukraine. Behind the scenes in Beijing, there is support for the Kremlin's aggressive rhetoric, but not for the execution plans.  [...]

https://www.intelligenceonline.com/government-intelligence/2022/10/03/beijing-intervenes-again-in-response-to-moscow-s-nuclear-threat,109829978-art


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Das relações tóxicas de "i hate myself" às relações de poder do "triangle of sadness"

i hate myself

Evoluções no cinema. Evoluções dos tempos. O "i hate myself", de Joanna Arnow, data de 2012, enquanto o "triangle of sadness", de Ruben Östlund, deve estrear no próximo Outubro. Uma década separa estes dois filmes. Descubram as diferenças, digo, as evoluções... E tentem perceber como isto aconteceu.

triangle of sadness

O humor (subtil, muito subtil, mas bem presente nos diálogos do "triangle of sadness") é um dos aspectos mais visíveis dessas evoluções. A conversa entre duas das personagens, sendo que uma defende uma narrativa "tipo Reagan" e a outra tem um discurso vagamente marxizante, é uma pequena jóia. A relação de poder entre "dinheiro" e "beleza" é outra jóia... Tal como o é a importância de saber pescar. Uma importância que acabará por colocar tudo de pernas para o ar. E mais não digo.

Apenas diria, em síntese e para poder citar um clássico, que temos razões para não desesperar. Se o humor ainda existe (ou está de volta...), nem tudo está perdido. Portanto, sejamos optimistas, estejamos preparados para o pior. E tudo se passará bem. Com umas pitadas de humor.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

China: Xi reaparece (depois dos rumores de "golpe de Estado")

Bill Bishop, no Sinocism, dá hoje o "como" e o "quadro" deste reaparecimento do imperador vermelho.

  • Xi reappears - Xi led the Standing Committee, the rest of the Politburo, and many other top leaders on a visit to the “Forging Ahead in the New Era“ exhibition in Beijing, “an exhibition on the great achievements of the Party and the country over the past decade”. At a speech for the opening of the exhibition Wang Huning said “The fundamental reason why historic achievements and historic shifts have been made in the cause of the Party and the country is the helmsmanship and leadership of General Secretary Xi Jinping and the sound guidance of Xi Jinping Thought on Socialism with Chinese Characteristics for a New Era 新时代之所以发生伟大变革,根本在于习近平总书记掌舵领航,在于习近平新时代中国特色社会主义思想科学指引”.

  • Pre-Party Congress propaganda - More on the “Revitalization Library” and another argument for needing Xi to stay in charge.

  • More tax and fee relief - This week’s State Council Executive meeting again focuses on fee and tax relief, with deepening concerns about unemployment as the backdrop.

  • World Bank cuts 2022 GDP projections - The World Bank now forecasts that the PRC’s 2022 GDP growth will grow at 2.8%, barely half the rate of the rest of the Asia-Pacific region. The PRC leadership really set themselves up for disappointment by setting a GDP 5.5% “guidance” at the NPC in March, wish I understand the political logic of setting a target that just about everyone assumed was too high, even before the Shanghai lockdown disaster.

  • Local governments selling land to themselves? - Caixin on the growing trend of local governments desperate for revenue using their local government financing vehicles to buy land from the local governments, funded by bank loans. That does not sound either sustainable or like deleveraging?

  • Patriotic films for the October Holiday - One that it is a Top Gun-like story and another that is about bringing trapped PRC nationals home from a conflict zone.

  • Meta says stopped PRC campaign to influence US election - The campaign sounds small and poorly executed, but is a bad sign. If there are similar efforts on TikTok or Wechat, will we get reports on the activities from Bytedance or Tencent?

  • Ding Jaixi - A long and disturbing look by Reuters at the crackdown on lawyers through the case of Ding Jiaxi.

  • https://sinocism.com/p/xi-reappears-more-tax-and-fee-relief

  • terça-feira, 27 de setembro de 2022

    Conflito na Ucrânia: Guerra Híbrida, Guerra de Informação e Dezinformatsiya

    A guerra da Ucrânia não é uma "operação militar" ("especial" ou não), é uma guerra que se desenvolve, ao mesmo tempo, em vários tabuleiros e em que o "militar" pode nem ser (ou vir a ser) o mais importante, mas apenas o que serve para desencadear outras acções e outras dinâmicas que poderão tornar-se as decisivas, ou seja, uma espécie de detonador.


    É, portanto, uma "hybrid war", como o  povo, as criancinhas e os políticos mainstream já começam a ver. Uma guerra híbrida que, como os manuais russos das últimas três décadas a concebem e definem, se desenrola, em simultâneo, nos tabuleiros da política, da informação, da economia e do militar, utilizando uma larga palete de técnicas e de metodologias para confundir, desnortear e desorientar o inimigo (mais do que para o vencer no campo militar). Uma guerra em que nada é proibido e tudo é permitido, tal como na versão chinesa, chamada de "Unrestricted Warfare"  (ver aqui: https://www.c4i.org/unrestricted.pdf).

    A guerra de informação aqui desempenha um papel fundamental ao permitir moldar as mentes e os corações das populações do inimigo. A escola russa de guerra de informação sempre adoptou uma posição de "fraco" a enfrentar o "forte", sempre deu a primazia aos "conteúdos" e não, como a americana o faz, aos "continentes" e, desde há quase um século, desenvolveu como uma das  suas armas principais o que Estaline cunhou como "dezinformatsiya"... Caso exemplar e recentíssimo desta guerra de informação e da sua "dezinformatsiya" é o referido na foto acima. 

    segunda-feira, 26 de setembro de 2022

    China: Rumores de 'Golpe' parecem não ter fundamento

    Há escassas horas, uma das "fontes bem informadas" do IntelNomics, em Pequim, relativizava os "rumores" de "golpe" e fazia-nos o ponto da situação: 

    "The rumor was originally hyped by an account with a track record of making bogus claims, and in the frenzied amplification no one has presented any credible sourcing or evidence, just lots of wishful thinking.

    "Today Xinhua announced the full delegate list for the 20th Party Congress and the statement about the selection, also read out on the Sunday CCTV Evening News, opens with the line “Under the strong leadership of the Party Central Committee with Comrade Xi Jinping as the core”...

    Xinhua, comunicado do dia 25 09 2022

    terça-feira, 6 de setembro de 2022

    Bases de um ''SoftPower'' de Portugal

    Portugal não tem sabido gerir os seus recursos, tanto os materiais como os imateriais, nos últimos dois séculos. Tem mesmo conseguido a espantosa proeza de ignorar a existência de alguns dos seus principais recursos... No campo do imaterial (e do que agora se convencionou chamar "soft power") as "proezas" da ignorância portuguesa batem todos os records. Veja-se o ranking abaixo e pense-se um pouco no assunto, na sua fabulosa riqueza e no que com isso poderá ser feito.


    segunda-feira, 5 de setembro de 2022

    Tempos de Guerra pela Hegemonia Global

     José Mateus

    A potência marítima enfrenta, desde o início do século XXI, os mais sérios e perigosos desafios colocados, desde a II Guerra, pelos "chalengers" continentalistas. 

    Este tempo é, portanto, como há anos venho a escrever, de decisiva disputa por uma nova hegemonia global e, consequentemente, por um novo modelo global.

    Há anos, logo no início da passada década, chamei a atenção para a necessidade de bem ler o então ideólogo-mor de Vladimir Putin, em cujo sub-texto era possível descortinar já tudo o que veio a desenvolver-se e a que agora se chama "crise ucraniana". 

    Infelizmente, às "elites" políticas ocidentais, enredadas em assuntos mais prementes, faltou o tempo para dedicar à leitura da "ficção política" de Vladislav Surkov. Falta de tempo que hoje pagamos caro, demasiado caro, incomportávelmente caro. Um preço que ninguém via desde a II Guerra.



    Hoje, se Surkov continua a ser de leitura obrigatória, é absolutamente necessário, imprescindível mesmo, que as "elites" políticas ocidentais (ou, pelo menos, aqueles que são os cérebros dessas "elites"...) travem conhecimento com o ideólogo-mor de Xi Jinping e a sua obra capital, o "America Against America" do aterrador teórico principal do PCC, Wang Huning. 


    Que a distração destas "elites" não se repita, espera-se.

    quarta-feira, 24 de agosto de 2022

    Patrick Drahi é o maior 'shareholder' da British Telecom, com 18%

    No 'Guardian' de hoje: 

    Billionaire Patrick Drahi allowed to keep BT stake after security review

    Drahi’s investment in BT prompted scrutiny by the government under new powers to intervene in takeovers of companies with interests in critical sectors of the UK economy, such as communications, energy, defence and transport.


    Entrepreneur prompted government investigation in May after raising stake in UK telecoms company to 18%

    The billionaire Patrick Drahi will not be forced to cut his stake in BT after the UK government ruled the investment did not pose any national security concerns.

    Drahi, who moved to France as a teenager and holds Israeli, French and Portuguese citizenships, is BT’s biggest shareholder.

    Drahi’s investment in BT prompted scrutiny by the government under new powers to intervene in takeovers of companies with interests in critical sectors of the UK economy, such as communications, energy, defence and transport.

    https://www.theguardian.com/business/2022/aug/23/billionaire-patrick-drahi-allowed-to-keep-bt-stake-after-security-review

    segunda-feira, 22 de agosto de 2022

    Prof. Garcia Domingues: "A Língua Portuguesa É Moçárabe"

    Uma sugestão de Verão: Aproveitar o que resta das férias para ler o maior dos (escassíssimos) arabistas portugueses (e o único que lia os clássicos islâmicos no original e também traduziu alguns, como o nosso Ibn Caci, o aliado de Afonso Henriques), o senhor Professor Garcia Domingues, autor de vasta bibliografia. Aqui apresentado na sua última grande entrevista. Renovamos os votos de boa leitura

    Entrevista ao Prof. Garcia Domingues na revista “Leonardo”

    in "Leonardo", Ano I, n.º 4, Dez. de 1988, pp. 25-31


    Leonardo – Os árabes contribuíram para a formação de Portugal?

    Garcia Domingues – Em meu parecer, os muçulmanos não influenciaram a formação da nossa Pátria, pois no pensamento árabe do tempo não se distinguiam figuras de relevo, como poetas, filósofos e teólogos.

    Se os árabes contribuíram em algum aspecto para a definição da nossa nacionalidade foi apenas no que respeita ao território e aos aspectos demográficos. Não há influência nítida e demonstrável do pensamento árabe no Norte. Não encontrei verdadeiramente essa influência… Engraçado, sou arabista e pareço um anti-árabe.

    L – Existia algum diálogo entre cristãos e muçulmanos?

    GD – Não, nunca houve um verdadeiro diálogo. O que aconteceu foi uma coexistência que, raro em raro, não foi pacífica.

    Mas os moçárabes facilitaram a Reconquista, até mesmo a conquista do Algarve. Muitos deles, entre os quais um tal Garcia Rodrigues, frequentavam as cortes dos chefes mouros e dos Cheikes dando a conhecer os pontos fracos das suas defesas. Como sabem, o Conde Sesnando que tinha sido durante muito tempo primeiro ministro da Taifa de Sevilha, auxiliou o Rei Fernando Magno na conquista de Coimbra.

    A ajuda desses povos foi de tal modo importante que quando o Rei D. Afonso Henriques fez prisioneiros moçárabes gerou um protesto dos monges de Santa Cruz de Coimbra.

    L – Podemos entender que há uma realidade de Portugal mesmo antes da conquista?

    GD – Estou convencido de que sim. Antes da formação do Reino deram-se eventos que determinaram a constituição de substractos etnográficos que facilitaram as conexões que lhe deram unidade e origem.

    No território ocidental sempre existiu uma tendência para se criarem forças independentistas. Houve durante muito tempo a Taifa de Badajoz que incluía Beja, Évora, Santarém, Lisboa, Coimbra e Viseu que foi ocupada pelos Reis de Castela e, posteriormente, recuperada pelos Almorávidas. Por outro lado, existira antes o Reino dos Suevos, que correspondeu a todo o nordeste peninsular até à região de Coimbra.

    Estes Estados correspondem em muito, ao actual território português e, nesse sentido, pode-se afirmar que são o prenúncio da formação do território português, pois influenciaram profundamente a unidade geográfica e populacional da região.

    Mas penso que a determinação do território português partiu da consciência dos Barões durienses que se reuniram em redor de D. Afonso Henriques. Não é possível conceber que o Reino de Portugal tenha sido constituído por um garoto de catorze anos e pela vontade dos Barões que passavam todo o tempo a lutar entre si.

    A verdade é que houve uma série de enleios, de complicadas uniões políticas. Se os moçárabes não tivessem acompanhado o movimento dos Barões durienses, Portugal não existia.

    L – Mas se essa realidade não residia no território, no povo ou na língua, temos de admitir que ele deriva de um plano mais próximo do filosófico que de um plano político…

    GD – Sim, essa realidade era espiritual. Lembro-lhes que o Cristianismo já existia há muitos anos na Península e que, por exemplo, na época dos romanos foi criada a seita de Prisciliano, cuja influência se fez sentir nas regiões nortenhas onde existiam pequenos núcleos de culto e cultura religiosa. Decerto que contribuíram para essa unidade.

    L – Parece-nos, contudo, que a origem de Portugal se pode colocar num plano espiritual, mas nunca num plano religioso já que não havia uma harmonia religiosa.

    GD – No plano religioso e eclesiástico é claro que houve problemas. Por exemplo, a oposição de Braga a Santiago de Compostela contribuiu para a formação da nacionalidade.

    Também não devemos deixar de considerar a contribuição das ordens religiosas para a construção da nossa Pátria. As ordens de Cluny e de Cister. Digamos, o Cristianismo fez desaparecer muitos cultos e, noutros casos, assimilou-os.

    L – Afirmou que os árabes não tiveram influência na formação de Portugal. Contudo, a língua portuguesa possui elementos muçulmanos…

    GD – Não, não. A língua portuguesa é moçarábica. Não podemos esquecer que a região de Coimbra era um importante centro moçarábico. Os moçárabes são cristãos de cultura antiquíssima da Península Ibérica.

    Os problemas da língua pátria relacionam-se com o aparecimento do cristianismo peninsular. Há palavras que evoluíram especialmente no moçárabe. Por exemplo, há uma terra perto de Vila Real de Santo António chamada Cacela. Esta palavra vem do latim Castella, que significa castelos. No castelhano, a palavra evolui para castilla. Portanto, não é deste castilla que resulta Caçela. A passagem do ST para o ç só se verificou no moçárabe, o que prova a influência moçarábica.
     
    Forneço-lhes outro exemplo: no Algarve diz-se grizéus, nome dados às ervilhas verdes. Gri significa verde acinzentado no sul de França e na costa levantina de Espanha. Daí vem griziu que dá grizeu, o que só aconteceu no moçárabe. A influência é mais moçárabe do que árabe…

    L – É possível relacionar o messianismo português com o pensamento árabe?

    GD – Não o relaciono com o árabe, mas antes com o hebraico. Os árabes têm a ideia do Mahdi.

    O messianismo sebastianista é um valor nacional extraordinário. É uma prova de sobrevivência de Portugal. O sebastianismo é popular, nasceu de circunstâncias trágicas e pavorosas. No entanto, não o concebo como uma mística religiosa universal.

    L – Revertendo às relações entre o Islamismo e o Cristianismo. Hoje, existe diálogo entre estas duas religiões?

    GD – Sim. A prova é que se está a realizar. O ponto de contacto tem sido a Espanha e as famosas reuniões de Córdova. Nestas iniciativas fazem-se ofícios religiosos cristãos e muçulmanos no mesmo espaço físico, a Mesquita Catedral de Córdova, embora em separado.

    A Igreja Católica sempre se recusou a participar nos congressos de religiões que se realizavam em Chicago porque não considerava os outros cultos como realidades positivas no domínio religioso. De tal modo assim era, que julgava uma ideia herética o diálogo entre religiões.

    Depois do Vaticano II, a hierarquia eclesiástica modificou a sua posição e levou a efeito os encontros de Assis que contou com budistas que, até então, não eram considerados. Penso que a mudança de atitude se deve à II Guerra Mundial e à insistência dos intelectuais europeus, que procuram conhecer o mundo muçulmano.

    L – Considera esse diálogo possível no domínio da teologia?

    GD – Há uma coisa em comum: a unidade de Deus. Até certo ponto entre cristãos e muçulmanos pensa-se que se está adorando o mesmo Deus, um Deus único anunciado por Abraão, que se relaciona igualmente com o judaísmo. Portanto, parece tratar-se da mesma divindade. Na realidade, entre Cristianismo e Islamismo existem semelhanças que permitem o aproximar das duas religiões, apesar de as concepções teológicas e simbólicas divergirem.

    No entanto, penso que esse diálogo tem um sentido político. A Europa não vê com bons olhos a união do mundo muçulmano à União Soviética.

    Aliás, a escolástica foi influenciada pelo pensamento árabe, e até houve doutores em Paris que defendiam as ideias de Aristóteles segundo a interpretação de Averróis. Recordo que S. Tomás de Aquino conheceu os textos árabes de Aristóteles.

    O historiador espanhol Miguel Asín Palacios, a maior figura do arabismo peninsular, tentou demonstrar a influência da mística islâmica na mística cristã. Pessoalmente, não descortino essa influência no misticismo português.

    quarta-feira, 10 de agosto de 2022

    Alea Jacta Est... Trump Manda Evacuar Teerão

    Trump, 17.06.2025